segunda-feira, 29 de maio de 2017

Supor que o Tao existe é um Erro que leva à mortalidade


Comunicação apresentada este domingo, 28 de Maio, no 
"II Congresso Lusófono de Ciências das Religiões".



Supor que o Tao existe é um erro que leva à mortalidade

Texto: Mestre José Barreno


Proposta:
A primeira frase do Tao Te Ching é o ponto de partida para o estabelecimento de um paradigma no Taoismo que é, em si, uma proposta para a evolução da consciência do Homem Verdadeiro. Um estudo aprofundado do Tao Te Ching, do Qing Jing Jing, do Zhuang Zi, do Huainanzi e do HuangDi Neijing, entre outros clássicos Taoistas, permite entender, por um lado, a multiplicidade de “taoismos” e, por outro, a unidade que os liga.  Do Tao à Cosmogénese, passando pela evolução do Homem e o seu papel na Sociedade, os Clássicos oferecem as pistas necessárias para Caminhar neste plano na direcção de retorno ao Tao – o único movimento possível. Na prática, é pela constância na observação do interno que se alcançam Silêncio e Quietude por forma a transcender o plano do movimento e alternância (fei chang tao). Para alcançar a dimensão apofática, liberta de todas as imagens, é fundamental a Certeza, ou seja, abdicar da dúvida para dar lugar à espontaneidade do processo.


O TAO, O TAO VERDADEIRO, NÃO É O TAO INCONSTANTE.” Lao Zi
Lao Zi escolheu não definir Tao. Opta antes por definir o que não é Tao. 
Ao não definir Tao, deixa campo aberto para que se possa vislumbrar um traço no mental, de uma forma tão subtil que, quase apagada, surge como luz primeira, oferecendo a possibilidade de um potencial de desenvolvimento embriónico, retroalimentado e autogerado no sentido de não requerer consciência individual, visto que o processo ocorre espontaneamente (自然 ziran) por toda a natureza e é "porta para todas as maravilhas".
Ao optar por definir o que não é Tao - não pode ser visto, palpado ou escutado -, Lao Zi remete para o que tomba debaixo do reino dos sentidos e cuja influência é externa e caótica, convidando à observação do interno para assim alcançar silêncio e quietude, que é em nós uma ausência de movimento, logo transcendente no que a este universo diz respeito.
Portanto, o não ser pode ser aquilo que existe não existindo, ou Tao.
De modo apofático, Lao Zi deixa um legado, ou uma visão, ou um Caminho que, por eliminação, conduz à natureza inata (性 xing) - ou origem verdadeira - que pode ser tida como Pureza e Quietude (清靜 qingjing)
Assim, o Tao da inconstância (非常道 feichang tao), situa-se no plano em que ocorre a alternância cíclica dos movimentos, ou seja, o Tao que caminhamos no decurso da nossa presença neste universo e para o qual o praticante é advertido não ser este o verdadeiro Tao, mas o Tao em que se situa atualmente.
Oferece, deste modo, uma possibilidade para lá do aqui ser. Um caminho a fazer ( jiang), de retorno ( fu) ao Tao indiscritível - por isso sem atributos ou títulos -, que passa em primeira instância por saber navegar num Tao incomum ou extraordinário, conforme a tradução do professor Li Chaobin, da Universidade de Pequim, e que implica adaptar-se sem adaptar(水道shuitao). Por isso, apesar de ambos possuírem títulos diferentes, "ambos têm a mesma origem" e assim, "desprovido de titulo é origem do céu e da terra, mas sendo nomeado é mãe de todas as coisas".

Algo incomum não é necessariamente mau, ou menos bom, ou até bom, mas uma constatação de que o Tao, "a imagem sem imagem", quando necessário, gera formas diferentes que mais não são do que um produto evolutivo do próprio Tao, iniciado por um movimento subtil (动 dong), até ao desenvolvimento pleno, na dimensão material da existência (ming), expresso na multiplicidade e na diversidade (wanwu).
Logo, o Tao é, também no incomum, condição pré-existente para a génese universal, brotando constantemente, assegurando a existência e o desenvolvimento harmonioso das dez mil coisas.  



“O TAO GERA O UM, O UM PRODUZ O DOIS, O DOIS CRIA O TRÊS E O TRÊS AS DEZ MIL COISAS”
Fixado num ponto original, o Tao é agora a raiz (gen)imóvel que nutre e restaura, numa incessante cascata de eventos, suportado num processo operativo com uma dinâmica matemática e automática que desemboca na experiência do universo substancial, cujo desenlace se expressa, como atrás referido, na multiplicidade.
É de facto extraordinário o modo como o Tao opera, gerando uma possibilidade transformativa contínua, estabelecendo como primado universal a mudança constante – sendo exatamente esta mesma alternância a que observamos entre o dia e a noite, o alto e o baixo, o interno e o externo, enfim, o yin e o yang
Logo, é pela constância (chang) na observação (guan) dos fenómenos e da sua dinâmica operativa (Wu Xing), baseada na não ação (無為 wuwei), integrando sem separação e assim respeitando o justo equilíbrio, que se encontra a oportunidade de finalmente perceber que as coisas e as formas são afinal, não coisas e não formas.



“TAO NÃO TEM FORMA, MAS PODE DESVELAR-SE COMO CONSCIÊNCIA”. Mestre Meng Zhiling, Chinese Taoist College, Bai Yun Guan (Pequim), 2012
Deste modo, a essência do Tao pode continuamente assegurar a transformação dos seres, num ciclo que só terminará quando desperta a consciência que transcende a visão comum sobre a natureza e os seus fenómenos.  
A natureza da transformação fica acessível pela utilização devida de intenção e vontade (yi e zhi), por forma a esvaziar (kong) o pré concebido ou a falsa experiência auto infligida (shouxin) condição para que n e domínio espiritual e sensitivo, possam superar a regra que o plano impõe, permitindo que retornem ao que é original e numinoso, realizando o que se pode denominar de fusão com o todo ou aspeto original da alma, conforme o Tao Te King, no seu capitulo 10, demonstra: "se o homem conseguir que a alma espiritual controle a sua alma sensitiva (...) elas poderão permanecer indissolúveis".    
Nesse momento, cessará a transformação, visto que, ao realizar a sua natureza original, entenderá que a origem não é mutável, apesar de fonte de mutação.    
Assim, nada mais restará que requeira mudança, ou que implique movimento, resistência e desgaste.
Na quietude em que o EU deixa de interferir é produzida a ressonância que permite superar a dualidade.
Superar a dualidade, significa não necessitar de escolher. 
Não escolhendo, a probabilidade de erro pela (re)acçãodiminui. 
Assim, não escolher leva ao não agir e este à quietude e à Paz.
Deste estado de vazio absoluto ou não existência, de não movimento ou não ação, impossível de discrição, de visualização e de sensação, que, nas palavras de LaoZi, é também impossível de ser nomeado, surge, por negação, a verdade (zhen).

Por isso, o sábio não julgaantes "vê na obscuridade e entende no silêncio", evitando classificar e dividir, mas antes preferindo clarear a mente e tranquilizar o coração, por forma a manter esse estado de quietude e pacificação interna,"(...) como aqueles que obtêm a paz suprema no coração (...) pois o grande homem é tranquilo e isento de pensamento, silencioso e pacificado."
Só assim pode a paz brotar. 
Esclarecida e límpida, eivada de verdade e confiança, renovada em cada momento de quietude cultivada no mais íntimo do ser, como "aquele que é puro e tranquilo e desse modo o modelo do universo", assim produzindo a ressonância verdadeira que sustenta toda a criação. 
Deste modo, a paz que qualquer um pode e deve, no silêncio, em si construir, será a mesma que amanhã reconhecerá nos locais que frequenta, pois "se ele o cultiva no seu reino, a virtude florescerá"contribuindo desse modo para uma sociedade mais justa, esclarecida e pacifica.
Justa porque integrante e igualitária, gerando o equilíbrio que permite o florescimento de forma livre, dinâmica e criativa.
Esclarecida porque clara e transparente e assim acessível.
Pacifica porque baseada na quietude e não ação.



“…CHAMADO A NOMEÁ-LO, CHAMAR-LHE-IA TAO.”
Assim, sabendo sem saber, sendo sem ser, numa consciência adimensional e equalitária (無無亦無wuwu yi wu), despida da ignorância, mas ataviada pelo puro e único (Yi Qi), alcançada pela obra em si e por si, com denodada constância, pode o caminhante percorrer a vida, consciente de que a mudança é um resultado operativo cuja essência se denomina Tao, existindo antes do existir num contínuo para lá do existente.
Há uma coisa misteriosa
Indefinida mas perfeita
Que já existia mesmo antes do Céu e da Terra
Em silêncio e no vazio do espaço
Roda em torno de si mesma sem parar
Poderá ser chamada a Mãe da Natureza
Não se lhe conhece um nome
Por isso se lhe chama TAO
Arbitrariamente pode considerar-se Grande
Sendo Grande gira sem cessar
Regressando sempre ao seu ponto de origem
Por isso TAO é supremo
O Céu é supremo
A Terra é suprema
Também supremo é o Homem
Existem no Universo
Quatro poderes supremos
Um deles é o Homem
O Homem segue o destino da Terra
A Terra segue o destino do Céu 
O Céu segue o destino de TAO
TAO assume o seu próprio destino
(Cap. 25 do Tao Te King, tradução João C. Reis e Maria Helena O. Reis)

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